Cultura / Lazer

Basquiat no CCBB: 8 coisas que você precisa saber sobre o pintor antes de ver a exposição

Aberta em São Paulo, retrospectiva com 80 obras do expoente do neoexpressionismo passará pelas 4 unidades do CCBB no Brasil.

“Quando Basquiat ia para a vernissage de uma exposição, ele era a estrela da noite. Mas quando saía da galeria, o táxi não parava para ele na rua porque ele era negro”, explica o curador Pieter Tjabbes.

Desde o dia 25 de janeiro está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), uma retrospectiva de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), pintor norte-americano de ascendência afro-caribenha e expoente do neoexpressionismo. 

Com entrada gratuita, a mostra reúne 80 obras, incluindo pinturas, gravuras, cerâmicas e desenhos, que devem ficar na capital paulista até 7 de abril para, em seguida, serem expostas nas sedes do CCBB de outras três capitais: Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

 O conjunto de obras apresentado pela primeira vez ao público faz parte do acervo particular da família do industrial Mugrabi, de origem síria, radicado nos EUA, conhecido no mundo das artes como um dos maiores colecionadores tanto de Basquiat quanto do pintor pop Andy Warhol (1928-1987). 

Quem assina a curadoria é o holandês radicado no Brasil Pieter Tjabbes, da produtora Art Unlimited – que foi parceira do CCBB durante os dois anos de negociações da exposição que custou para os patrocinadores a bagatela de R$ 15 milhões

Em maio do ano passado, uma obra de Basquiat foi leiloada por US$ 110,5 milhões, o valor mais alto obtido pelo artista até então. O jovem pintor figura num seleto panteão de artistas cujas obras foram adquiridas por preços superiores a US$ 100 milhões – tais como Pablo Picasso, Alberto Giacometti, Francis Bacon e o próprio Warhol.

“A obra do Jean-Michel Basquiat foi rapidamente reconhecida pelos colecionadores como algo de grande valor cultural, uma novidade. Com isso, ainda vivo, ele conseguiu vender obras por preços bem bons para a época. E depois da morte dele, os preços não pararam de subir”, explica Pieter Tjabbes ao HuffPost Brasil.

Em entrevista por telefone, o curador contextualizou o período e o ambiente em que Basquiat ascendeu, “uma Nova York à beira do colapso”, explicou as principais características da obra e milItância do artista, que “usava todos os cantos da tela” e desfez alguns mitos que cercam sua história.

O uso abusivo de drogas e a amizade profunda e produtiva que Basquiat teve com Warhol também foram destacadas pelo curador. “Eles tinham uma forma muito particular de dialogar como artistas”, conta. Com base nas palavras Tjabbe, a seguir você acompanha 8 fatos sobre o artista que podem te ajudar a ver a exposição com outros olhos.

1. Basquiat fez parte de um movimento histórico numa NY caótica.

“No final dos anos 1970, Nova York estava próxima de um colapso econômico. Isso possibilitou que toda uma geração de jovens se mudasse para a cidade tendo um custo de vida muito baixo. A moradia era de graça, por meio de ocupação de prédios ou sob pagamento de um aluguel muito barato. Criou-se assim um ambiente com uma liberdade muito grande para jovens talentosos dos EUA – e do mundo. Boa parte desses jovens se mudou para Manhattan – o que hoje seria impensável já que os preços de moradia são altíssimos. Eram pessoas de todas as áreas de criação: dança, música, poesia, escritores e pintores. E ela se encontravam nas ruas. Os artistas não tinham uma técnica determinada. Eles criavam de todas as formas. Muitos tinham bandas de música. O próprio Basquiat também formou uma banda chamada Gray, que tocava noise music. Ele tocava clarinete e se pautava também nos experimentos musicais de John Cage (artista norte-americano pioneiro na música aleatória e eletroacústica), nos quais os músicos tinham poucas instruções e cada um criava um ritmo, um som, sem muita conexão. Os artistas dessa geração tinham liberdade total de expressão. Tocavam música e ao mesmo tempo escreviam poesia e pintavam.”

2. A arte de Basquiat é dotada de assinatura própria.

“”Basquiat faz parte de uma geração cujo trabalho foi chamado por críticos de neoexpressionismo. Esse foi um momento de retorno à pintura; a figura do artista voltou a ser algo central nas obras, as emoções voltaram a transparecer nas telas. O final dos anos 60 e início dos anos 70 foram dominados por alguns movimentos como o minimalismo, arte conceitual e pop art. São todos momentos na arte em que a figura do artista era menos importante. A arte havia se distanciado da personalidade e da emoção dos artistas. A pintura tinha perdido muito da sua importância. Os artistas minimalistas, por exemplo, mandavam fazer suas obras para que a “mão” deles não aparecesse nas telas. Nesta época, a pintura foi declarada morta. A geração do neoexpressionismo trouxe a pintura de volta. Os artistas começaram a pintar com pinceladas dotadas de energia, emoção e liberdade de criação.”

3. As obras dele misturam diferentes linguagens.

“A obra de Basquiat é um típico exemplo da geração de sample. Ele compôs os quadros com elementos que juntava – tanto imagens quanto palavras. Nas obras, ele usa as palavras mostrando que elas significam algo e também dá a elas a representação de imagens. Ele costura figuras, parte com planejamento, parte de forma poética. O método da colagem, que é também uma característica da arte do século 20, é muito presente na obra dele. Ele colava papéis, desenhos próprios e também xerox coloridos e pintava por cima. Ele tinha uma coleção de livros que consultava – tanto sobre História da arte quanto de outros temas. Existe um livro específico que teve um impacto muito grande sobre ele. Era um livro sobre anatomia (Anatomia de Gray, publicado em 1858 por Henry Gray), que ele ganhou de sua mãe quando tinha 7 anos, depois de sofrer um acidente de carro. Os desenhos do corpo humano que ele viu na publicação lhe causaram impacto, fazendo que ele inserisse anos depois essas imagens em suas obras. É importante dizer que os quadros de Basquiat por vezes não tem um centro. Ele trabalhava todos os cantos da tela. Na obra dele, as linguagens se misturam. É difícil dizer em que ponto o quadro vira um desenho e quando o desenho vira um quadro.

4. Basquiat não era grafiteiro.

“Ele não pode ser considerado como um artista grafiteiro. Isso é muito claro. Ele começou a carreira em 1977, 1978 junto com seu amigo Al Diaz. Eles pintavam rases enigmáticas – às vezes poéticas – nas paredes de Manhattan sob o pseudônimo SAMO (de same old shit ou mesma merda, em português). Apesar de serem feitas com spray, uma forma de expressão de arte de rua, elas [as intervenções] eram muito mais obras conceituais do que propriamente grafite. Ele também fez isso apenas durante um ano. Na exposição a gente mostra esse período através de algumas fotos tiradas na época. O que ele leva para a sua obra é esse aspecto do dinamismo do grafite, da forma inacabada que um grafite tem. Os quadros dele mantêm essa energia. Ele falava em entrevistas que sabia desenhar, mas que lutava contra isso. Ele fazia de propósito desenhos mal acabados. Porque ele achava que isso trazia uma energia mais interessante.”

5. Basquiat gozou de estrondoso sucesso durante sua curta vida.

“A obra do Jean-Michel Basquiat foi rapidamente reconhecida pelos colecionadores como algo de grande valor cultural, uma novidade. Com isso, ainda vivo, ele conseguiu vender obras por preços bem bons para a época. E depois da morte dele, os preços não pararam de subir. Os museus sempre têm uma certo atraso na aquisição de obras de artistas muito jovens. Basquiat morreu quando tinha apenas 27 anos. Aos 20 e poucos, ele já tinha um sucesso tremendo. Quando os museus começaram a se interessar pela obra dele, os preços já estavam proibitivos. Como consequência, não há hoje muitos museus com obras dele no mundo. Os mais importantes já têm — por doação ou por outros motivos. Mas as instituições não conseguem mais pagar os altos preços praticados.”

6. O fato de ser negro fez com que ele vivesse grandes contradições.

“O fato de Basquiat ser negro influenciou bastante a carreira dele. Ele era um dos poucos artistas afro-americanos num mundo artístico que era predominantemente branco. Ele, desde o início, usou essa condição para homenagear músicos de jazz e atletas negros – duas áreas onde os negros tinham voz e recebiam admiração. Ele também usava essa condição de forma crítica. Era uma personalidade que tinha um sucesso considerável. Quando ia para a vernissage de uma exposição, ele era a estrela da noite. Mas quando saía da galeria, o táxi não parava para ele na rua porque ele era negro. Basquiat viveu muito essa contradição. E ele chamou a atenção em alguns de seus quadros para a falta de diversidade no mundo artístico e para os traumas sofridos pelos negros nos EUA.”

7. A amizade com Andy Warhol foi algo crucial em sua carreira.

“Ele fez uma série de pinturas junto com Andy Warhol, uma colaboração bem interessante. Warhol e Basquiat se conheceram e automaticamente gostaram da energia e criatividade um do outro. E resolveram fazer quadros em conjunto. Fizeram mais de cem obras, boa parte de grande porte. Um pintava uma coisa e o outro pintava por cima. Normalmente, o Warhol fazia uma projeção pintada à mão de uma imagem – um cachorro ou uma cabeça, por exemplo. E isso também era uma novidade porque Warhol nessa época [início dos anos 1980] já não pintava mais. Ele usava o método de serigrafia, quem pintava eram os seus assistente. Basquait incentivou ele a voltar a pintar. Os dois foram importantes um para outro. Eles tinham uma forma muito particular de dialogar como artistas. E eles tinham também uma grande amizade, que foi muito importante para Basquiat, pois dava uma certa segurança para ele.”

8. Assim como o uso (e abuso) de drogas.

“Uma coisa importante que vale ser ressaltada é a questão das drogas. Na época que Basquiat ficou em evidência havia liberdade tanto no que dizia respeito à criação quanto ao sexo e ao uso de drogas. Quase todo mundo do meio artístico nesse tempo usava drogas.Basquiat morreu de uma overdose. Ele não conseguiu controlar a ansiedade do uso. Andy Warhol também usava e foi uma pessoa importante na vida de dele porque dava conselhos para esse jovem artista. Warhol era uma das poucas pessoas que tinham um certo poder sobre Basquiat. Quando Warhol morreu, em 1987, Basquiat perdeu o chão.”

Serviço CCBB São Paulo

Datas de exposição: De quarta-feira a segunda-feira

Horário: Das 9h às 21h.

Endereço: Álvares Penteado, 112, no Centro.

Preço: Entrada gratuita

 

Fonte:huffpostbrasil/ Amauri Terto

 

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