Educação

Com quantas mãos se transforma a educação no campo?

Iniciativas de diferentes setores ajudam a melhorar o ensino em escolas rurais com ações que valorizam a identidade local 

Se existisse receita para construir uma boa escola do campo, certamente ela não seria igual à da zona urbana. O objetivo deve ser o mesmo: garantir que os alunos aprendam. Mas os ingredientes e o modo de fazer são diferentes para que ela se adeque às peculiaridades da vida rural, como garante o artigo 28 da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Com o intuito de aproximar a prática pedagógica da cultura regional, diferentes iniciativas governamentais e do terceiro setor estão trabalhando para transformar a educação no campo.

Por muito tempo, a identidade local deixou de ser considerada em muitas escolas rurais, com currículos que privilegiavam uma visão urbana de educação. Aos poucos, esse cenário tem se modificado com o reconhecimento de políticas de educação do campo que buscam a valorização da cultura regional, como a publicação das Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, em 2002.

“Nós temos a missão de garantir os direitos à educação dos povos do campo”, defende Rita Gomes, diretora de Políticas de Educação do Campo, Indígena e para as Relações Étnico-Raciais, do MEC (Ministério da Educação). De acordo com ela, ao mesmo tempo que a educação no campo deve atender às diretrizes nacionais, ele deve ser contextualizada com as demandas sociais e culturais dos estudantes.

Para dar conta das especificidades de escolas localizadas em zonas rurais e apoiar estados e municípios na implementação de políticas de educação no campo, em 2012 o MEC desenvolveu o Pronacampo (Programa Nacional de Educação do Campo). O programa traz um conjunto de ações voltadas para a melhoria das escolas, como a distribuição de materiais didáticos específicos, implantação de novas turmas de EJA (Educação de Jovens e Adultos), expansão de cursos profissionais relacionados ao campo e investimento em infraestrutura e tecnologia, incluindo a disponibilização de laboratórios de informática e a articulação para fornecimento de energia elétrica.

Formação de professores

A Escola da Terra está entre as ações desenvolvidas no programa. Em parceria com universidades federais, ela oferece um curso de aperfeiçoamento com carga horária de 180 horas para professores dos anos iniciais do ensino fundamental. “Uma das principais estratégias para fortalecer a educação no campo é a formação de professores”, destaca Rita Gomes, do MEC. Segundo ela, um educador que atua no campo deve compreender que a sua atuação docente ocorre em um contexto não homogêneo, em escolas pequenas e com turmas multisseriadas. “Nesse sentido, o curso é contextualizado com as demandas sociais e culturais desse estudante”, explica.

Outra iniciativa voltada para a formação de professores na zona rural é o programa Educação do Campo, do MOC (Movimento de Organização Comunitária). A organização do terceiro setor atua em 21 municípios do semiárido baiano e ajuda na construção de políticas públicas educacionais. Em parceria com a Universidade Estadual Feira de Santana, a associação desenvolve uma proposta de educação contextualizada que respeita a cultura local e valoriza a identidade do campo. A ação, voltada para os anos iniciais do ensino fundamental, já formou 1.500 profissionais, impactando quase 30 mil crianças.

O trabalho começou há mais de 20 anos como uma modalidade de EJA (Educação de Jovens e Adultos) para agricultores da região sisaleira, território no nordeste da Bahia. Muitos desses trabalhadores rurais já tinham frequentado a escola, mas não sabiam ler e escrever. “Percebemos que se não tivesse um trabalho para as escolas do campo, as crianças dos anos 90 seriam os futuros agricultores que continuariam sem ser alfabetizados”, explicou Bernadete Carneiro, técnica do programa de Educação do Campo, do MOC.

Uma das principais estratégias para fortalecer a educação no campo é a formação de professores

A metodologia do programa usa a cultura do campo para servir de base às práticas pedagógicas em sala de aula. Nos municípios de atuação do MOC, em parceria com as secretarias de educação, os professores e coordenadores participam frequentemente de encontros de estudo, avaliação, planejamentos de atividades, seminários temáticos e oficinas, onde também são estimulados a produzirem materiais didáticos próprios, adequados à realidade da escola.

De acordo com Bernadete, a formação continuada é fundamental para promover uma educação no campo conectada ao contexto local. “A universidade não prepara os professores para a educação no campo. A formação acadêmica deixa uma lacuna porque ela não trabalha com as especificidades que existem aqui”, afirma, ao mencionar sobre a necessidade de trabalhar uma formação que respeite a cultura local.

O uso de tecnologia também está presente em algumas formações do MOC, onde são apresentadas estratégias de educomunicação para os professores. No entanto, a técnica do programa de Educação do Campo afirma que ainda não são todas as escolas que contam com infraestrutura. “Nos 21 municípios, todos têm pelo menos uma escola com ponto de internet, mas nem sempre funciona”, conta.

Pedagogia da alternância

Dentro da proposta de reconhecer o ambiente rural como um espaço educativo, alguns movimentos sociais do campo estão utilizando a pedagogia da alternância na formação de jovens e adultos. A metodologia, desenvolvida na França como uma proposta pedagógica de educação do espaço rural, prevê que o aluno passe semanas alternadas na escola, em regime de internato, e em casa com a família, aplicando os conhecimentos e participando das atividades de produção agrícola. Os educadores também fazem visitas técnicas às propriedades para acompanhar as atividades práticas desenvolvidas pelos estudantes.

Segundo os dados da União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil, existem 367 destas instituições espalhadas pelo país. Nos estados da região Sul do país, a Arcafar Sul (Associação Regional Das Casas Familiares Rurais Do Sul Do Brasil) é responsável por coordenar o trabalho desenvolvido nas Casas Familiares Rurais. Para a assessora pedagógica da associação Dirce Maria Slongo, uma das principais conquistas da educação no campo foi o reconhecimento dessa metodologia pelo Conselho Nacional de Educação. “A aula não se aprende apenas entre quatro paredes”, defende.

Em uma Casa Familiar Rural, a organização curricular funciona por áreas de conhecimento: linguagens e códigos, ciência da natureza e matemática e ciências humanas. Além disso, os jovens também recebem formação técnica agrícola, incluindo alguns itens como sustentabilidade na produção, veterinária e projeto profissional de vida. “Trabalhamos muito na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade. Não faz sentido ensinar os conteúdos em gavetas porque não vemos o mundo assim, com o olhar só da matemática ou da química”, desta Dirce Maria.

Fonte:porvir/Marina Lopes

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